Existe um paradoxo cruel no coração da crise dos hospitais filantrópicos: quanto mais a Santa Casa trabalha, mais prejuízo ela acumula. Esse resultado, aparentemente absurdo, tem uma explicação técnica — e ela começa na tabela SIGTAP.
O que é a defasagem da tabela
A tabela SIGTAP define os valores que o SUS paga por cada procedimento. O problema não está em existir uma tabela, mas no fato de que muitos desses valores permanecem praticamente congelados há anos, enquanto os custos reais — pessoal, insumos, medicamentos, energia, manutenção — sobem continuamente.
Estudos de entidades hospitalares e órgãos de controle demonstram que, em diversos procedimentos, o SUS remunera uma fração do custo real. Em internações, a defasagem pode ser expressiva em várias especialidades. Em cirurgias de média complexidade — ortopedia, cirurgia geral, ginecologia — é comum que o hospital tenha prejuízo a cada procedimento realizado.
A matemática cruel da produção
O resultado é matemático: se cada procedimento dá prejuízo, aumentar a produção aumenta o déficit.
E como boa parte dessas instituições é referência em urgência e emergência, a demanda é contínua, crescente e impossível de recusar. O hospital não pode simplesmente parar de atender — a porta precisa ficar aberta 24 horas. Ele fica preso a produzir cada vez mais, acumulando prejuízo a cada plantão.
A conta nunca fecha porque o custeio sobe enquanto a receita permanece estagnada. A produção aumenta, mas o repasse não acompanha.
Por que isso é estrutural, não gerencial
É importante entender: essa defasagem não é fruto de má gestão. Ela é estrutural. Nasce do modelo em que o SUS financia por produção abaixo do custo real.
A boa gestão pode mitigar o impacto — reduzindo desperdício, melhorando o faturamento, evitando glosas —, mas não elimina uma defasagem que vem da própria tabela. Reconhecer isso é libertador: tira do gestor a culpa por um problema que não é dele, e permite focar energia no que de fato pode ser mudado.
O que a gestão pode fazer
Diante de uma defasagem estrutural, a resposta é atacar todas as outras frentes ao mesmo tempo:
- - Diversificar receita (convênios, particular, doações)
- - Buscar ativamente incentivos e captação de recursos
- - Fazer a recuperação tributária para aliviar passivos
- - Reduzir desperdício com rigor
- - Definir uma vocação assistencial financeiramente sustentável, evitando serviços cronicamente deficitários
A tabela SIGTAP explica por que a conta não fecha. A estratégia de recuperação existe para fazê-la fechar por outros caminhos.
Aplicar na prática
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É a tabela que define os valores de remuneração dos procedimentos no SUS. O problema é que muitos desses valores permanecem praticamente congelados há anos, enquanto os custos reais sobem continuamente.
Porque em diversos procedimentos o SUS remunera bem abaixo do custo real. Em algumas cirurgias de média complexidade, é comum que o hospital tenha prejuízo a cada procedimento realizado.
A defasagem é estrutural e exige resposta em múltiplas frentes: diversificação de receita, captação de recursos, recuperação tributária, redução de desperdício e definição de uma vocação assistencial financeiramente sustentável.